{"id":141578,"date":"2016-09-06T09:58:02","date_gmt":"2016-09-06T13:58:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/?p=141578"},"modified":"2016-09-07T13:38:48","modified_gmt":"2016-09-07T17:38:48","slug":"jornalista-retrata-abandono-nas-fronteiras-ribeirinhas-de-acesso-por-pimenteiras-e-cabixi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/2016\/09\/06\/jornalista-retrata-abandono-nas-fronteiras-ribeirinhas-de-acesso-por-pimenteiras-e-cabixi\/","title":{"rendered":"Jornalista retrata abandono nas fronteiras ribeirinhas de acesso por Pimenteiras e Cabixi"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-141579\" src=\"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/portos-clandestinos-300x200.jpg\" alt=\"portos-clandestinos\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/portos-clandestinos-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/portos-clandestinos-630x420.jpg 630w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/portos-clandestinos-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/portos-clandestinos.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>No lado boliviano do rio Guapor\u00e9, pr\u00f3ximo ao munic\u00edpio rondoniense de Pimenteiras, uma cruz chama a aten\u00e7\u00e3o dos navegantes.<\/p>\n<p>Fincada num pequeno promont\u00f3rio \u00e0s margens do rio, a cruz \u00e9 um s\u00edmbolo do abandono da fronteira Brasil-Bol\u00edvia, corredor de acesso f\u00e1cil aos dois pa\u00edses. Um territ\u00f3rio aberto para o tr\u00e1fico e o contrabando.<\/p>\n<p>A cruz homenageia o policial federal Roberto Sim\u00f5es Mentzinger, morto com um tiro naquele local pelo boliviano Jos\u00e9 Pereira Melgar em 1999. Na vers\u00e3o oficial da PF, o agente investigava uma quadrilha de traficantes que enviava coca\u00edna da fronteira para S\u00e3o Paulo. Abandonado, o corpo do agente federal foi devorado por on\u00e7as.<\/p>\n<p>Pouca coisa mudou na fronteira com o decorrer dos anos. E isso faz desse peda\u00e7o do Brasil amaz\u00f4nico um territ\u00f3rio onde seguir a lei \u00e9 um exerc\u00edcio complexo. \u00c9 o que ocorre, por exemplo, entre os munic\u00edpios de Guajar\u00e1-Mirim, em Rond\u00f4nia e Guayaramerin, na Bol\u00edvia. Separadas apenas pelo rio Mamor\u00e9, as duas cidades sentem os efeitos da crise econ\u00f4mica mundial.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o da fronteira do Estado de Rond\u00f4nia com a rep\u00fablica da Bol\u00edvia \u00e9 de 1.342 quil\u00f4metros. Os munic\u00edpios rondonienses localizados na faixa da fronteira boliviana s\u00e3o Guajar\u00e1-Mirim, Nova Mamor\u00e9, Costa Marques, Alta Floresta do Oeste, S\u00e3o Francisco do Guapor\u00e9, Alto Alegre dos Parecis, Pimenteiras do Oeste e Cabixi.<\/p>\n<p>Outrora repleta de lojas com os mais diversos artigos e bugigangas eletr\u00f4nicas, Guayaramerin \u00e9 um p\u00e1lido retrato do que j\u00e1 foi. A Avenida General Frederic Rom\u00e1n, principal via comercial da cidade, sempre repleta de brasileiros, agora tem mais portas fechadas que abertas.<\/p>\n<p>Isso resulta num convite a mais para atividades ilegais. Os portos clandestinos mant\u00eam atividades febris, principalmente \u00e0 noite e nas primeiras horas da manh\u00e3. Adaildes Gomes, o \u2019Dourado\u2019, \u00e9 um dos que fazem da pr\u00f3pria embarca\u00e7\u00e3o um ve\u00edculo para atividades ilegais de contrabando. \u201cAqui se atravessa de tudo\u201d, diz ele. O \u2018tudo\u2019 significa eletrodom\u00e9sticos, comidas, pe\u00e7as de vestu\u00e1rio. Do lado boliviano tamb\u00e9m chega gasolina, mais barata que a brasileira. \u201cMolhou as m\u00e3os do cara e est\u00e1 dentro\u201d, diz Dourado.<\/p>\n<p>\u201cOs caras passam por todo canto\u201d, diz o barqueiro Villemar, experiente trabalhador de embarca\u00e7\u00f5es de passageiros nos rios Mamor\u00e9 e Guapor\u00e9. Um dos principais portos clandestinos entre os dois pa\u00edses \u00e9 conhecido como \u2018Igarap\u00e9 do Primeiro\u2019, um pequeno e discreto \u2018furo\u2019 no rio. Ali, de manh\u00e3 at\u00e9 o meio-dia, o movimento \u00e9 cont\u00ednuo. Villemar conduz os rep\u00f3rteres em uma lancha voadeira para observar de perto os portos clandestinos enquanto explica o funcionamento das atividades.<\/p>\n<p>O vai e vem de pequenos barcos de uma margem a outra do rio carregando produtos contradiz at\u00e9 a determina\u00e7\u00e3o escancarada estampada numa placa de um pequeno porto boliviano. Entre outras recomenda\u00e7\u00f5es h\u00e1 a expressa proibi\u00e7\u00e3o de se transportar produtos ilegais. Obviamente ningu\u00e9m d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o \u00e0 placa.<\/p>\n<p><strong>Terra sem lei<\/strong><\/p>\n<p>Nos dois munic\u00edpios a viol\u00eancia e a prostitui\u00e7\u00e3o ganham espa\u00e7o. Mais vis\u00edvel ainda \u00e9 o problema em Guayaramerim. Apesar de pequeno, o munic\u00edpio tem muitas casas noturnas. N\u00e3o \u00e9 incomum encontrar meninas de 14 anos se prostituindo.<\/p>\n<p>\u201cVai una cosita a\u00ed?\u201d, pergunta o boliviano na principal pra\u00e7a de Guayaramerim, enquanto centenas de motos, a maioria modelo anos 70, ziguezagueiam ao redor da pra\u00e7a. A oferta de coca\u00edna em Guayaramerin \u00e9 farta. Afinal l\u00e1 \u00e9 um dos corredores do narcotr\u00e1fico. Mas a folha da coca, usada para mascar, \u00e9 vendida normalmente nas feiras da cidade. Assim como o ch\u00e1 de coca, vendido em saquinhos, como o de erva-doce ou erva cidreira.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do narcotr\u00e1fico, a fronteira Brasil-Bol\u00edvia \u00e9 sempre alvo de outras a\u00e7\u00f5es ilegais, como o contrabando de madeira. O \u201ccampesino\u201d Mariano Picolomini, 72 anos, reclama que os madeireiros entram sem permiss\u00e3o na comunidade ind\u00edgena Graquiniana, onde vivem 30 fam\u00edlias ind\u00edgenas. A comunidade fica distante apenas 14 km do centro de Guayaramerim. \u201cEles entram para cortar \u00e1rvores, principalmente \u00e0 noite e isso n\u00e3o est\u00e1 certo\u201d, diz Picolomini.<\/p>\n<p>Em Rond\u00f4nia, o estado at\u00e9 busca coibir essas atividades ilegais. Mas as a\u00e7\u00f5es pontuais representam apenas isso. A\u00e7\u00f5es pontuais. Em junho passado, por exemplo, uma opera\u00e7\u00e3o desencadeada pela Secretaria de Estado, Seguran\u00e7a, Defesa e Cidadania (Sesdec), abordou mais de 40 embarca\u00e7\u00f5es. Foram apreendidos 20 quilos de merc\u00fario, cinco armas de fogo e 65 muni\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m foram recuperados tr\u00eas ve\u00edculos \u2013 inclusive um caminh\u00e3o, numa opera\u00e7\u00e3o feita em 12 cidades de fronteira. O merc\u00fario chama a aten\u00e7\u00e3o a outro problema, os garimpos clandestinos.<\/p>\n<p>Mas o calcanhar de Aquiles continua a ser a manuten\u00e7\u00e3o de uma fiscaliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua nessas \u00e1reas de fronteira. \u00c9 um procedimento que necessitaria de mais verbas e pessoal, artigos em falta quando se fala de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia. O problema \u00e9 que boa parte da droga e armamento pesado que entram diariamente em territ\u00f3rio brasileiro vem da Bol\u00edvia. Isso sem falar na biopirataria. Um estudo recente feito pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o estimou em R$ 2 bilh\u00f5es o preju\u00edzo causado aos cofres brasileiros por conta dessas a\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p><strong>Fiscaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Percorrer os rios Mamor\u00e9 e Guapor\u00e9, saindo de Guajar\u00e1-Mirim at\u00e9 a divisa Rond\u00f4nia-Mato Grosso \u00e9 entender a plena acep\u00e7\u00e3o da express\u00e3o aus\u00eancia do estado. S\u00e3o centenas de quil\u00f4metros desguarnecidos.<\/p>\n<p>Um dos poucos locais onde a presen\u00e7a armada brasileira se faz notar \u00e9 no Forte Pr\u00edncipe da Beira, no munic\u00edpio rondoniense de Costa Marques. O forte \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o da \u00e9poca colonial e uma tentativa do governo portugu\u00eas de assegurar presen\u00e7a no local. Atualmente \u00e9 uma base do Ex\u00e9rcito. Dez soldados s\u00e3o respons\u00e1veis por fiscalizar 212 km de fronteira. \u201c\u00c9 um trabalho muito dif\u00edcil\u201d, diz o capit\u00e3o Alan dos Santos Reis, que comanda a Brigada de Fronteira no local.<\/p>\n<p>\u201cAqui \u00e9 comum se ter carros, armas e drogas descendo o rio vindo de fazendas e indo at\u00e9 Porto Ustarez\u201d, diz o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Quilombola de Forte Pr\u00edncipe da Beira, Elvis Pessoa, 39 anos. Ele diz que a repress\u00e3o a essas atividades depende muito do comando do pelot\u00e3o. \u201cTem comandante que \u00e9 mais r\u00edgido e outros nem tanto\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cO rio Guapor\u00e9 \u00e9 um caminho aberto. Daqui se chega at\u00e9 Mato Grosso\u201d, diz o comandante Celso, que pilota embarca\u00e7\u00f5es pelo rio h\u00e1 mais de 20 anos. Uma das formas, segundo ele, \u00e9 a chegada e partida de produtos em avi\u00f5es bimotores que pousam em fazendas. \u201cDe l\u00e1 se vai pra qualquer lugar\u201d, diz.<\/p>\n<p>Um dos caminhos \u00e9 Porto Ustarez, na Bolivia. L\u00e1 funciona um min\u00fasculo porto. A movimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 cont\u00ednua. Saindo do porto h\u00e1 uma estrada de terra, conhecida por Transcocaineira, por n\u00e3o possuir fiscaliza\u00e7\u00e3o alguma. De l\u00e1 se chega at\u00e9 Cochabamba e La Paz. Uma vila distante dois quil\u00f4metros do porto \u00e9 o \u00fanico ind\u00edcio de civiliza\u00e7\u00e3o por muitos quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>\u201cSim, aqui se passam coisas ilegais\u201d, confirma Leonardo Teduro, que passa o dia transportando gente e produtos da vila at\u00e9 o porto e vice-versa numa moto com bagageiro. Quando perguntado sobre que produtos seriam esses, Leonardo troca olhares com o vendedor de refrigerante de uma bai\u00faca da vila. Os dois nada respondem.<\/p>\n<p>Se do lado brasileiro o posto do Ex\u00e9rcito \u00e9 o \u00fanico sinal de uma presen\u00e7a mais ostensiva do estado, no lado boliviano as tentativas s\u00e3o maiores, embora t\u00edmidas. Em Remanso e Buena Vista h\u00e1 pequenos postos onde jovens soldados se revezam na vigil\u00e2ncia. Em Cafetal, local onde Evo Morales foi preso ainda como lideran\u00e7a entre os cocaleros, cerca de 40 soldados atuam no posto militar. Mas s\u00e3o presen\u00e7as mais simb\u00f3licas que efetivas.<\/p>\n<p>Entre mais de 30 pontos vulner\u00e1veis ao crime organizado na fronteira brasileira, pelo menos cinco est\u00e3o na divisa com a Bol\u00edvia, segundo admitiu ainda em 2014 o governo brasileiro. Em 15 e 16 de maio de 2014, representantes dos dois pa\u00edses se encontraram em Santa Cruz, na Bol\u00edvia, para planejar um combate conjunto ao crime organizado na fronteira. Dois anos depois, o problema permanece longe de chegar a um final feliz.<\/p>\n<p>Por:\u00a0Ismael Machado e Lui Machado<br \/>\nFonte: Brasil de Fato<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No lado boliviano do rio Guapor\u00e9, pr\u00f3ximo ao munic\u00edpio rondoniense de Pimenteiras, uma cruz chama a aten\u00e7\u00e3o dos navegantes. Fincada num pequeno promont\u00f3rio \u00e0s margens do rio, a cruz \u00e9 um s\u00edmbolo do abandono da fronteira Brasil-Bol\u00edvia, corredor de acesso f\u00e1cil aos dois pa\u00edses. Um territ\u00f3rio aberto para o tr\u00e1fico e o contrabando. A cruz [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":141579,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-141578","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conesul"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=141578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141578\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/media\/141579"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=141578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=141578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=141578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}