{"id":346454,"date":"2021-08-23T09:18:15","date_gmt":"2021-08-23T13:18:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/?p=346454"},"modified":"2021-08-24T17:51:27","modified_gmt":"2021-08-24T21:51:27","slug":"sinto-que-morri-nao-existo-para-sociedade-diz-ex-moradora-de-ro-que-hoje-vive-embaixo-de-viaduto-em-cuiaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/2021\/08\/23\/sinto-que-morri-nao-existo-para-sociedade-diz-ex-moradora-de-ro-que-hoje-vive-embaixo-de-viaduto-em-cuiaba\/","title":{"rendered":"&#8220;Sinto que morri. N\u00e3o existo para sociedade&#8221;, diz ex-moradora de RO que hoje vive embaixo de viaduto em Cuiab\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_346455\" aria-describedby=\"caption-attachment-346455\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-346455\" src=\"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30-298x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"298\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30-298x300.jpeg 298w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30-600x603.jpeg 600w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30-768x772.jpeg 768w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30-696x700.jpeg 696w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30-418x420.jpeg 418w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-22-at-19.54.30.jpeg 1069w\" sizes=\"auto, (max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-346455\" class=\"wp-caption-text\">Claudineia \/ Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na frente do barraco improvisado com len\u00e7\u00f3is e lona, a vis\u00e3o de Claudineia \u00e9 o tr\u00e2nsito da Avenida Miguel Sutil, uma das mais movimentadas de Cuiab\u00e1. Nas profundezas do concreto do viaduto, ela se desdobra para sobreviver \u00e0 fome, \u00e0s doen\u00e7as e a os riscos que as ruas trazem.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o existo para a sociedade, n\u00e3o existo para o pa\u00eds. Essa vida \u00e9 triste, nem sei se tenho nome. Sinto falta de ter com quem conversar, as pessoas passam e sentem medo de mim. Tenho que falar que n\u00e3o vou fazer mal, s\u00f3 vivo na rua mesmo. \u00c0s vezes sinto que morri&#8221;, desabafa.<\/p>\n<p>No viaduto onde Claudineia ou Ana, como ela gosta de ser chamada, vive com outras pessoas na mesma condi\u00e7\u00e3o. Usu\u00e1ria de crack desde o in\u00edcio da adolesc\u00eancia, ela diz n\u00e3o lembrar o pr\u00f3prio sobrenome e calcula que tenha 45 anos. Suas mem\u00f3rias parecem vir \u00e0 mente em lampejos.<\/p>\n<p>Ela lamenta que se, visse a m\u00e3e hoje, sequer a reconheceria. Para amortecer a dureza de viver nas ruas, precisa da pedra j\u00e1 quando acorda. Na maioria das vezes sequer dorme, passa as noites em claro. A busca pelos segundos de prazer oferecidos pela droga n\u00e3o deixa tempo para descansar ou se alimentar.<\/p>\n<p><strong>EXPERI\u00caNCIAS NA RUA\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois meses, Claudineia conta que foi atropelada na avenida. Pensou que fosse morrer e pediu a Deus para que tivesse for\u00e7as, j\u00e1 que n\u00e3o conseguia se alimentar ou beber \u00e1gua.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 apenas uma das tr\u00eas vezes que a mulher negra e de cabelos perfeitamente cacheados diz ter ficado no &#8220;vale da sombra da morte&#8221;, desde que se pegou vivendo em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n<p>&#8220;Uma vez fui estuprada por seis homens, quase me mataram, &#8216;quebraram&#8217; minha cabe\u00e7a e me deixaram na beira de um rio. Acharam que eu estava morta. Outra vez um desconhecido me deu mais de 10 facadas&#8221;, diz enquanto mostra as cicatrizes das perfura\u00e7\u00f5es espalhadas pelo corpo.<\/p>\n<p>Como forma de driblar a realidade, as pedras de crack s\u00e3o de extrema necessidade para Claudineia. Da hora que acorda, para &#8220;o corpo reagir&#8221;, como explica, at\u00e9 a hora de dormir. Naquele dia, ela ainda n\u00e3o havia dormido.<\/p>\n<p>Virou a noite usando droga, que compra com dinheiro de programas que consegue fazer. Ela conta que o &#8220;vazio&#8221; deixado pelo crack \u00e9 aterrado com cacha\u00e7a. &#8220;Programa \u00e9 a \u00fanica coisa que sei fazer&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p><strong>ABUSO SEXUAL NA INF\u00c2NCIA<\/strong><\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria contada por Claudineia, ela nasceu no Paran\u00e1, mas morava na Linha 64, em Rond\u00f4nia, com a fam\u00edlia. Quando tinha oito anos, come\u00e7ou a ser abusada sexualmente pelo pai. Com 12, decidiu fugir de casa.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei com aquilo no psicol\u00f3gico, ele dizia que se eu contasse [sobre os abusos], ele mataria todos n\u00f3s. Isso acontecia quando minha m\u00e3e ia trabalhar. N\u00e3o conhecia a droga ainda, nem sabia o que era o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Claudineia explica que quando fugiu de onde morava foi parar em uma casa de prostitui\u00e7\u00e3o. L\u00e1, ficava apenas como ajudante da cozinha. &#8220;Fiquei curiosa para saber como as outras meninas ganhavam dinheiro, tamb\u00e9m queria ganhar. Acabei ficando com uma pessoa, fiquei gr\u00e1vida e tive um filho quando ia fazer 13 anos&#8221;.<\/p>\n<p>O beb\u00ea era um menino e nasceu em 7 de junho. De acordo com ela, a crian\u00e7a morreu tr\u00eas meses depois. Alguns dias antes da morte do filho, o pai do menino, com quem Claudineia estava morando na \u00e9poca, morreu em um desabamento de terra em um garimpo de Ariquemes (RO).<\/p>\n<p>&#8220;Ele cavava embaixo da terra, nesse dia ele foi trabalhar e o barranco desceu em cima dele. Quando tiraram, j\u00e1 estava morrendo. Com meu filho entre a vida e a morte no hospital, chega a not\u00edcia de que meu marido estava morrendo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>LEMBRAN\u00c7AS QUEIMADAS<\/strong><\/p>\n<p>Claudineia conta que em uma folha de papel tinha anotado algumas informa\u00e7\u00f5es sobre ela, j\u00e1 que n\u00e3o possui mais documentos de identidade. No entanto, tudo foi queimado em uma a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, diz ela.<\/p>\n<p>Para a mulher, que chora entre uma frase e outra, principalmente quando fale sobre a saudade da m\u00e3e, o sentimento \u00e9 de n\u00e3o existir. Ela afirma que chegou a ficar nove meses sem o crack, ganhou o peso que hoje j\u00e1 n\u00e3o possui mais. No corpo, al\u00e9m das cicatrizes e machucados, Claudin\u00e9ia traz tamb\u00e9m as marcas do frenesi causado pela droga.<\/p>\n<p>O crack age no organismo de forma veloz, em poucos minutos \u00e9 preciso outra dose da droga que entorpece o peso da exist\u00eancia embaixo do viaduto. Claudineia divide o espa\u00e7o do viaduto com outras pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n<p>De tragada em tragada, \u00e9 um pouco da consci\u00eancia dela que se vai. Apesar disso, quando questionada, diz que pensa em largar a droga e pede a Deus para ter for\u00e7as. Uma televis\u00e3o antiga tamb\u00e9m \u00e9 parte do que ela tem. No entanto, o eletrodom\u00e9stico n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>Mesmo vivendo em situa\u00e7\u00e3o de rua, ela tenta manter suas vaidades. Pede doa\u00e7\u00f5es de esmalte e maquiagens, enquanto diz que gosta de ficar bem arrumada.<\/p>\n<p>Para cozinhar, ela improvisou uma panela em um gal\u00e3o de pl\u00e1stico. No canto do barraco \u00e9 onde ela toma banho com \u00e1gua que pede no posto de gasolina em um balde.<\/p>\n<p>Claudineia afirma que \u00e9 a primeira vez que conta sobre sua vida. Com os olhos marejados, ela explica que n\u00e3o adianta expor suas dores para os companheiros de viaduto.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea \u00e9 uma das primeiras pessoas que estou contando minha hist\u00f3ria, n\u00e3o adianta eu contar para eles, basta eu falar para Deus&#8221;, finalizou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Na frente do barraco improvisado com len\u00e7\u00f3is e lona, a vis\u00e3o de Claudineia \u00e9 o tr\u00e2nsito da Avenida Miguel Sutil, uma das mais movimentadas de Cuiab\u00e1. 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