{"id":389123,"date":"2023-02-26T10:31:56","date_gmt":"2023-02-26T14:31:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/?p=389123"},"modified":"2023-02-27T11:55:03","modified_gmt":"2023-02-27T15:55:03","slug":"lider-indigena-morre-picado-por-cobra-em-vilhena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/2023\/02\/26\/lider-indigena-morre-picado-por-cobra-em-vilhena\/","title":{"rendered":"L\u00edder ind\u00edgena morre picado por cobra em Vilhena"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_389124\" aria-describedby=\"caption-attachment-389124\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-389124 size-medium\" src=\"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/49478ffe-4319-49cf-8876-86a19ada1f14-300x186.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"186\" srcset=\"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/49478ffe-4319-49cf-8876-86a19ada1f14-300x186.jpg 300w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/49478ffe-4319-49cf-8876-86a19ada1f14-600x371.jpg 600w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/49478ffe-4319-49cf-8876-86a19ada1f14-356x220.jpg 356w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/49478ffe-4319-49cf-8876-86a19ada1f14.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-389124\" class=\"wp-caption-text\">Ant\u00f4nio Saban\u00ea\/Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Morreu nesta sexta-feira, 24, um importante l\u00edder ind\u00edgena vilhenense: Ant\u00f4nio Saban\u00ea. Ele foi v\u00edtima de picadas da cobra surucucu-pico-de-jaca. Ficou\u00a0 tr\u00eas dias internado, mas n\u00e3o resistiu.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de duas d\u00e9cadas, Ant\u00f4nio vivia na comunidade ind\u00edgena Sowaint\u00ea, \u00e0s margens do Rio Roosevelt. Teve sete filhos. Dois moram em Sapezal (MT). Uma cursa faculdade de Enfermagem em Vilhena.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio era muito ouvido em sua comunidade; mais falante do grupo, era esclarecido e conhecia muitas hist\u00f3rias da regi\u00e3o. Exercia\u00a0 lideran\u00e7a e era tratado como \u201cs\u00e1bio\u201d, uma especie de paj\u00e9, pois sabia sobre plantas medicinais. Era funcion\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade, durante 22 anos, atuando junto aos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>asceu em 1968 na antiga Vila Vilhena, no n\u00facleo urbano que na \u00e9poca era um distrito pertencente a Porto Velho e com uma popula\u00e7\u00e3o insipiente.<\/p>\n<p>A cidade de Vilhena foi emancipada em 1977. Ant\u00f4nio foi testemunha ocular do surgimento e progresso do mundo n\u00e3o-ind\u00edgena no Sul de Rond\u00f4nia. &#8220;Minha inf\u00e2ncia eu passei em Vilhena vendendo colares e outros objetos que tec\u00edamos, quando eram apenas duas ruas existentes&#8221;, relatava.<\/p>\n<p>Com o tempo, Ant\u00f4nio sentiu vontade de sair da cidade e ir morar na mata, novamente. &#8220;Como recomendava meu av\u00f4 que sempre dizia que as nossas ra\u00edzes s\u00e3o o que h\u00e1 de mais importante&#8221;, afirmava ele. &#8220;A gente estuda, aprende, mas sem deixar de valorizar em primeiro lugar o que somos e o nosso lugar. Eu tenho orgulho de ser ind\u00edgena, mantendo inclusive meu bei\u00e7o furado. Nossa cultura, nossa l\u00edngua, nossas cren\u00e7as s\u00e3o importantes. Eu sou da \u00e1rea de sa\u00fade, cursei ensino m\u00e9dio, mas dou valor \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es, \u00e0s ervas e \u00e0s ra\u00edzes medicinais, por exemplo&#8221;, explicou nosso anfitri\u00e3o, uma esp\u00e9cie de paj\u00e9 contempor\u00e2neo que mistura informa\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas com seus conhecimentos ancestrais.<\/p>\n<p><strong>Rio Roosevelt<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0s margens do lend\u00e1rio Rio Roosevelt \u2014 por onde passaram em 1914 o ex-presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, acompanhado pelo militar C\u00e2ndido Rondon e sua comitiva \u2014 est\u00e1 a comunidade ind\u00edgena Sowaint\u00ea, dos ind\u00edgenas Saban\u00ea. S\u00e3o 18 fam\u00edlias e 52 pessoas que vivem nessas terras.\u2028\u2028Localizada a 70 km do centro de Vilhena, a comunidade ind\u00edgena fica no Parque Ind\u00edgena Aripuan\u00e3 \u2014 \u00e1rea com 2,7 milh\u00f5es de hectares, em que moram diversas etnias de Rond\u00f4nia e do Mato Grosso, al\u00e9m dos Saban\u00ea.<\/p>\n<p>l\u00edngua Saban\u00ea pertence \u00e0 fam\u00edlia Nambiquara, etnia fortemente presente na hist\u00f3ria de Vilhena, mencionada em diversos trabalhos antropol\u00f3gicos e em relatos de viagens de brasilianistas.<\/p>\n<p>O termo Saban\u00ea foi mencionado pela primeira vez em 1914 em um relat\u00f3rio do general C\u00e2ndido Mariano da Silva Rondon, respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da linha de tel\u00e9grafo na regi\u00e3o e l\u00edder da Expedi\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica Rondon-Roosevelt.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 comunidade ind\u00edgena \u00e9 dif\u00edcil; em v\u00e1rios trechos da estrada, dominam os &#8216;arei\u00f5es&#8217;. \u00c0s margens dos caminhos que levam aos povos ind\u00edgenas, veem-se muitas belezas naturais, gado, s\u00edtios, mas tamb\u00e9m latif\u00fandio, devasta\u00e7\u00e3o e queimada. O bioma \u00e9 o de cerrado, com caracter\u00edsticas de savana e de transi\u00e7\u00e3o para o campo e a Floresta Amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 reserva, h\u00e1 uma ponte de madeira \u2014 que sempre acaba encoberta nos tempos de chuva \u2014 com cerca de 200 metros. A reivindica\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas \u00e9 que seja constru\u00eddo um pontilh\u00e3o de concreto elevado que favore\u00e7a, inclusive, a retirada de futuras produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas. Ali est\u00e1 o ic\u00f4nico rio que um dia foi conhecido como &#8220;Rio da D\u00favida&#8221;, rebatizado como Roosevelt ap\u00f3s a expedi\u00e7\u00e3o de 109 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Cada uma das fam\u00edlias Saban\u00ea que est\u00e3o na reserva vive afastada uma da outra. N\u00e3o h\u00e1 uma vila central. Mas elas mant\u00eam atividades coletivas, tanto no entretenimento como nos ro\u00e7ados de mandioca, banana e abacaxi que servem apenas para a subsist\u00eancia dos moradores. Tamb\u00e9m h\u00e1 pesca, ca\u00e7a e cria\u00e7\u00e3o de galinhas. Na ponte prec\u00e1ria do caudaloso Rio Roosevelt encontrei tr\u00eas mulheres pescando em meio ao para\u00edso, naquele fim de tarde de estio \u2014 apesar de no Brasil estarmos, oficialmente, no inverno; na Amaz\u00f4nia, dizem que s\u00f3 h\u00e1 duas esta\u00e7\u00f5es: inverno (chuva) e ver\u00e3o (seca).<\/p>\n<p>Tudo acontece perto da\u00a0 casa em que Ant\u00f4nio viveu: ali est\u00e1 uma escola estadual de ensino m\u00e9dio, com 21 alunos, e um posto do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Tamb\u00e9m ao lado de sua moradia h\u00e1 um campo de futebol e uma \u00e1rea com barraquinhas que os moradores usam para realizar eventos, como a tradicional Festa da Menina-Mo\u00e7a que faz parte da cultura ind\u00edgena rondoniense.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio mostrou o interior de sua casa feita de t\u00e1buas. Ambiente limpo, fog\u00e3o \u00e0 lenha, vasilhas de alum\u00ednio bem areadas, simplicidade, aconchego, apesar da rusticidade! Na parede, um velho r\u00e1dio \u2014 com apar\u00eancia de pe\u00e7a de antiqu\u00e1rio \u2014 leva as not\u00edcias de Vilhena para os adultos que t\u00eam pouca afinidade com tecnologias e m\u00eddias mais atualizadas. Alguns preferem mesmo os programas radiof\u00f4nicos em vez da internet.<\/p>\n<p>Os adolescentes usam \u2014 e amam \u2014 os smartphones conectados com o Wifi do &#8220;postinho&#8221; de sa\u00fade. Mas, n\u00e3o s\u00e3o &#8220;escravos&#8221; do mundo virtual como muitos &#8220;urban\u00f3ides&#8221;. Eles se movimentam bastante em suas brincadeiras e gostam de futebol.<\/p>\n<p>\u00c9 o exemplo de Ronaldy, de 17 anos, neto de Ant\u00f4nio Saban\u00ea que gosta de jogar bola e sempre arranja um tempo para espiar o celular.<\/p>\n<p>Nas casas, as meninas aprendem a fazer artesanatos e a valorizar as tradi\u00e7\u00f5es seculares do seu povo. As cestas e balaios chamam aten\u00e7\u00e3o pelo esmero e s\u00e3o vendidas aos visitantes; custam, em m\u00e9dia, R$ 20.<\/p>\n<p>&#8220;Ensinamos tamb\u00e9m na escola da comunidade a fazerem cestas e outros artefatos, e contamos nossas hist\u00f3rias&#8221;, explicou Ant\u00f4nio, reiterando seu objetivo de perpetuar os costumes, usos e habilidades de seu povo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu nesta sexta-feira, 24, um importante l\u00edder ind\u00edgena vilhenense: Ant\u00f4nio Saban\u00ea. Ele foi v\u00edtima de picadas da cobra surucucu-pico-de-jaca. Ficou\u00a0 tr\u00eas dias internado, mas n\u00e3o resistiu. 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