{"id":84481,"date":"2015-05-29T07:56:59","date_gmt":"2015-05-29T11:56:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/?p=84481"},"modified":"2015-05-29T07:57:48","modified_gmt":"2015-05-29T11:57:48","slug":"eu-ze-pistola-e-pretinha-leia-na-coluna-de-ivanir-aguiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/2015\/05\/29\/eu-ze-pistola-e-pretinha-leia-na-coluna-de-ivanir-aguiar\/","title":{"rendered":"Eu, Z\u00e9 Pistola e &#8220;Pretinha&#8221;  &#8211; Leia na coluna de Ivanir Aguiar"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_84482\" aria-describedby=\"caption-attachment-84482\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/2015\/05\/29\/eu-ze-pistola-e-pretinha-leia-na-coluna-de-ivanir-aguiar\/ivanir-aguiar-222-2\/\" rel=\"attachment wp-att-84482\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-84482\" src=\"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/ivanir-aguiar-2221.jpg\" alt=\"Ivanir Aguiar \u00e9 jornalista e membro da Academia Vilhenense de Letras\" width=\"300\" height=\"265\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-84482\" class=\"wp-caption-text\">Ivanir Aguiar \u00e9 jornalista e membro da Academia Vilhenense de Letras<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em uma das minhas viagens ao meu glorioso Rio de Janeiro, saindo de Porto Velho, com conex\u00e3o em Manaus, indel\u00e9veis lembran\u00e7as voltaram a minha mente.<\/p>\n<p>Depois de passar pela cidade, saboreando um suco de a\u00e7a\u00ed, com a\u00e7\u00facar mascavo, leite de mula preta e gengibre, resolvi dar uma esticada ao Porto de Manaus, conhecido pelo escoamento de produtos das v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil e do exterior, para ver de perto o trabalho dos seus homens, que lutam diuturnamente, carregando e descarregando cargas dos navios, traineiras e barcos, vindos do interior do Estado e, at\u00e9 do estrangeiro, trazendo produtos para serem vendidos na cidade e outras regi\u00f5es do Brasil, num frenesi dos mais movimentados.<\/p>\n<p>Na oportunidade, conheci entre outros, o Z\u00e9 Pistola, figura por demais conhecida no cais que foi falando da sua vida com a sua \u201cpretinha\u201d, mulher de seus cinco filhos que mora numa ilhazinha perto e que com ele trabalha, vendendo quinquilharias e comida feita na hora, para os passageiros dos barcos e trabalhadores do cais. Disse ele: Olha aqui seu mo\u00e7o, o senhor n\u00e3o me \u00e9 estranho. Parece que j\u00e1 te vi em outras ocasi\u00f5es por aqui. Confesso que gostei do senhor, pois, as pessoas que v\u00eam at\u00e9 aqui principalmente turistas, tratam a gente como se nada fosse. Passa pela gente, como se passasse por qualquer bicho. N\u00e3o fala, n\u00e3o cumprimenta e n\u00e3o bate papo, s\u00f3 dar ordens.<\/p>\n<p>O senhor \u00e9 diferente, fica perguntando pra gente como \u00e9 a vida aqui, e faz a gente se sentir mais gente. \u201cPor isso vamos sentar aqui perto da banca da minha \u201cpretinha\u201d e, enquanto eu dou um descanso pro meu velho corpo vou tamb\u00e9m falar algumas coisas sobre a nossa vida e aproveitar para tomar o meu suco de A\u00e7a\u00ed com leite de Mula preta que \u00e9 pro mode\u201d a gente ficar com mais disposi\u00e7\u00e3o e cheio de energia para o trabalho e outras coisas mais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEsse que o senhor t\u00e1 vendo ali \u00e9 meu filho menor, perto dos homens de dinheiro que chegam e que saem daqui para passear, pescar ou ir para alguma ilha, (que temos muitas por essa imensid\u00e3o do Solim\u00f5es e do Negro)\u201d. \u201cOs outros tr\u00eas que \u00e9 maior de idade, ficam nas barrancas ou em barcos pescando pra mode a gente comer e, \u00e0s vezes, at\u00e9 vender uns peixinhos fritos que a minha \u201cpretinha\u201d sabe preparar na hora, como ningu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Olha mo\u00e7o, a vida aqui n\u00e3o \u00e9 muito boa n\u00e3o, mas a gente n\u00e3o quer sair daqui, pois, j\u00e1 estamos acostumados \u00e0 vida dura da sobreviv\u00eancia e aqui temos o que cum\u00ea. Apesar de aparecer boatos que vamos perder a nossa Amaz\u00f4nia, ou dividir com estrangeiros, a gente n\u00e3o acredita n\u00e3o. Tem estrangeiro que at\u00e9 \u00e9 b\u00e3o, nos trata com educa\u00e7\u00e3o e respeita a nossa cultura, mas tem uns que chegam com dinheiro querendo comprar de tudo, at\u00e9 a nossa cabe\u00e7a. Mas a gente que j\u00e1 sabe como \u00e9 n\u00e3o entra nessa n\u00e3o. \u201cQuando a esmola \u00e9 grande, a gente desconfia\u201d.<\/p>\n<p>Ma Z\u00e9, se a vida aqui n\u00e3o \u00e9 boa \u2013 perguntei \u2013 como \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o quer sair daqui? Acontece, meu amigo que mesmo n\u00e3o sendo boa ainda conseguimos sobreviver, pois, n\u00e3o temos cultura e nem dinheiro suficiente pra viver em outro lugar. Todos daqui se sentem igual e n\u00e3o pisam em ningu\u00e9m. De vez em quando aparece algum valent\u00e3o, mas n\u00e3o fica por muito tempo n\u00e3o. Se fizer besteira sai correndo, ou vira comida de piranha, que, a aqui, \u201cn\u00f3s num \u00e9 besta n\u00e3o\u201d. Se vier com Deus ser\u00e1 bem vindo, mas sem, com o diabo no corpo, a gente d\u00e1 logo um jeito de sumir com o cabra.<\/p>\n<p>Para o senhor ter uma id\u00e9ia, aqui tem uma cabrita (mulher) que todas as tarde e noite, balan\u00e7a os seus requebros aqui no cais, a procura de algu\u00e9m para fazer amor e ganhar um dinheirinho. Ela \u00e9 querida por todos que aqui v\u00e9ve e todos gosta muito dela e respeita o seu trabalho. Mas quando chega algu\u00e9m metido a valent\u00e3o, a coisa pega. Ela mesma se vira com o cara e se n\u00e3o \u00e9 do lugar, a coisa fica preta, pois, al\u00e9m de ela ser boa de briga, com faca ou pau, tamb\u00e9m a turma vai ao seu socorro. Se tudo corre bem, ela agradece ao cabra e tudo volta ao normal.<\/p>\n<p>Num dia desse passado, ela estava toda fogosa na beira do cais com sua saiazinha pequena dan\u00e7ando, quando chegou um cara tentando agarrar as ancas dela. Sem conversa, sem nada, ela n\u00e3o aceitou e tacou uma paulada na cabe\u00e7a do bob\u00e3o que foi levado para o Pronto Socorro. A pol\u00edcia chegou e ningu\u00e9m soube dizer nada e nem quem fez aquilo. Ele, &#8211; o bob\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m preferiu n\u00e3o dizer nada pra n\u00e3o complicar ainda mais a sua vida aqui por essas bandas. A lei aqui \u00e9 seca, bateu levou, beijou \u00e9 beijado. Assim n\u00f3s vamus levando a vida, respeitando as pessoas e sendo respeitados. Aqui no Solim\u00f5es, tem um mont\u00e3o de ilhas pequenas que os turistas gostam de conhecer.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente leva de barco ou canoa para ele visitar os lugar. Passam o dia todo pescando e, \u00e0 noite voltam. Tem gente que at\u00e9 arma barraca pra passar a noite e fica acordado para ver a natureza dormir e acordar. \u00c9 muito bonito a gente olhar para o c\u00e9u e ver as estrelas e os cantos dos p\u00e1ssaros, numa m\u00fasica t\u00e3o linda e suave que a gente esquece da vida. Por isso \u00e9 que eu e minha \u201cpretinha\u201d n\u00e3o queremos ir embora, pois, a vida que Deus nos deu \u00e9 essa e agradecemos todas as manh\u00e3s e noites por estar vivos fazendo parte dessa natureza.<\/p>\n<p>Despedi-me do Z\u00e9 Pistola e fui caminhando pelo cais para ver de perto aquele burburinho de gente carregando e descarregando aquelas traineiras e barcos que chegavam pelo Solim\u00f5es. Os barcos entupidos de gente, pequenos bichos, galinhas, porcos, cabras, e aves numa mistura infernal. At\u00e9 uma cobra enrolada no pesco\u00e7o de um menino, mostrando a grande amizade entre os dois. Mistura entre bichos e gente numa vis\u00e3o impressionante, fazia crer que, al\u00e9m da vida dura daquela gente, tamb\u00e9m o contato direto com a natureza e com os bichos, diz bem da felicidade que sentem em fazerem parte daquela regi\u00e3o ainda in\u00f3spita, mas que mostra um brasileiro guerreiro e, sobretudo, valente que n\u00e3o mede sacrif\u00edcios para sobreviver, lutando contra todas as intemp\u00e9ries da natureza al\u00e9m das constantes amea\u00e7as vindas de inescrupulosos de fora da regi\u00e3o. Somente quem convive ali pode avaliar e se orgulhar de ter irm\u00e3os fortes, corajosos e dispostos a lutarem pelo seu peda\u00e7o de ch\u00e3o que a m\u00e3e-natureza legou.<\/p>\n<p>Como eu n\u00e3o tinha muito tempo, sa\u00ed do cais do porto em dire\u00e7\u00e3o do Centro de Manaus, andando sem destino pelas ruas centrais, onde pude observar que seus casar\u00f5es e templos majestosos do tempo dos velhos Bar\u00f5es da borracha permanecem imponentes constratando com a modernidade. \u00c9 claro, com a ajuda dos governos que procuram sedimentar e erradicar as riquezas e as hist\u00f3rias gravadas indelevelmente no majestoso Museu Nacional e outros modernos e suntuosos pr\u00e9dios.<\/p>\n<p>Foi realmente dias de muita felicidade, voltar a Manaus e participar com aquela gente, embora por pouco tempo, entre pessoas rudes e menos bafejadas pela sorte, mas que, decididamente, permanecem fieis aos seus lugares e s\u00e3o felizes dentro da sua \u00f3tica.<\/p>\n<p>Em tempo, Essa hist\u00f3ria da Amaz\u00f4nia, pode ter semelhan\u00e7a com gente e fatos, por\u00e9m ter\u00e1 sido mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto: Ivanir Aguiar (Jornalista e membro da Academia Vilhenense de Letras)<\/p>\n<p>Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma das minhas viagens ao meu glorioso Rio de Janeiro, saindo de Porto Velho, com conex\u00e3o em Manaus, indel\u00e9veis lembran\u00e7as voltaram a minha mente. 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