{"id":87885,"date":"2015-06-13T09:43:47","date_gmt":"2015-06-13T13:43:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/?p=87885"},"modified":"2015-06-13T09:43:47","modified_gmt":"2015-06-13T13:43:47","slug":"o-naufragio-do-marcia-maria-leia-na-coluna-de-ivanir-aguiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/2015\/06\/13\/o-naufragio-do-marcia-maria-leia-na-coluna-de-ivanir-aguiar\/","title":{"rendered":"O Naufr\u00e1gio do M\u00e1rcia Maria; Leia na coluna de Ivanir Aguiar"},"content":{"rendered":"<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\"><a href=\"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ivanir-aguiar-222122-300x2651.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-87886\" src=\"http:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ivanir-aguiar-222122-300x2651-300x265.jpg\" alt=\"ivanir-aguiar-222122-300x265\" width=\"300\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ivanir-aguiar-222122-300x2651-300x265.jpg 300w, https:\/\/www.extraderondonia.com.br\/sistema\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ivanir-aguiar-222122-300x2651.jpg 380w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Este artigo foi escrito atrav\u00e9s de um depoimento narrado por um trabalhador do cais que ganha \u00e1 vida carregando e descarregando navios em Manaus que, diariamente, sangram os rios Amazonas, Negros e Mamor\u00e9 transportando os ribeirinhos. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 calamitosa se levar em conta o tipo de embarca\u00e7\u00e3o que al\u00e9m de n\u00e3o ter m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m n\u00e3o existe fiscaliza\u00e7\u00e3o, chegamos a triste realidade daqueles que sofrem com as agruras da regi\u00e3o Amaz\u00f4nica. O perigo ronda as navega\u00e7\u00f5es, pois os passageiros s\u00e3o obrigados a se amontoarem sobre redes, colch\u00f5es jogados ao ch\u00e3o misturados com cargas, bichos, bebidas e verdadeiras mudan\u00e7as, o que oferece, sobremaneira, uma superlota\u00e7\u00e3o nas embarca\u00e7\u00f5es. O grito di\u00e1rio daquela gente nunca \u00e9 ouvido pelas autoridades respons\u00e1veis. Dai, constantemente, as manchetes dos jornais estampam trag\u00e9dias nos rios por diversos motivos. Esta hist\u00f3ria que vamos contar \u00e9 ver\u00eddica e foi vivenciada por centenas de moradores e turistas.<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">A jornada dos motores \u00e9 de v\u00e9spera e de demora. Ningu\u00e9m liga isso n\u00e3o. Todos s\u00e3o muito tranquilos. Indol\u00eancia de beira de rio, o barco balan\u00e7a de balan\u00e7ar, doce e calmo e calma, s\u00e3o as \u00e1guas do negro aqui em Manaus, que beijam despreocupados o centro da cidade. No cais, onde aporta o Marcia Maria, de quinze em quinze dias e que faz a linha do alto Solim\u00f5es, at\u00e9 Tabatinga, germinada com Leticia, onde tem muita gente que luta pela sobreviv\u00eancia e muitos brigam pela morte ou contra a morte, forjado no tr\u00e1fico de coca\u00edna, um existir menos ingl\u00f3rio, ent\u00e3o esse converse de pura Itatuba, j\u00e1 gemeram muito sob o peso das matronas peruanas, que desafiam a l\u00f3gica da idade e a \u201cl\u00f3s sapos bras\u00edlios\u201d, trazendo a \u201cpura\u201d inundando a paca de Manaus, \u2018para a alegria dos branquelos turistas &#8220;l\u00f3s das \u201ceuropas\u201d que gostam de curtir a selva e os nativos, sob a \u00f3tica dos colonizadores e\u201d sem viajar, n\u00e3o d\u00e1\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; orphans: auto; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">Poucos conhecem o mico le\u00e3o, considerado a miniatura do alto Solim\u00f5es. Por a\u00ed, nos barcos, ainda se consegue ver algum que viaja com a tripula\u00e7\u00e3o. De t\u00e3o pequenos, n\u00e3o t\u00eam forcas para dar uma mordida na m\u00e3o da encantada canadense que esta ai afagando um incomodado le\u00e3ozinho na amurada do M\u00e1rcia Maria, que pretende ganhar o Solim\u00f5es daqui a pouco, no lusco fusco, quando todos os motores que varrem a Amaz\u00f4nia saem e chegam num ir e vir sem sentido, nesse viajar infinito, de tanta \u00e1gua, de tanto peixe, e tantos perigos.<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; orphans: auto; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">O Marcia, ningu\u00e9m sabe como, mant\u00e9m-se flutuando com tantas grades de cerveja, com tantas caixas de alimentos, m\u00e1quinas e pe\u00e7as, e acima de tudo, a popula\u00e7\u00e3o ribeirinha que escolheu aquele janeiro para estar a bordo daqueles madeiros fortes, acostumados aos banzeiros intermin\u00e1veis das chuvas dos invernos tropicais. Nem bem se passou por um madorna e Manacapuru como lanternas espreitas por tr\u00e1s da lona, que desenha na luz morteira, seus contornos de princesas do Solim\u00f5es, com os ventos boreste e a\u00e7oitando o \u201cluxuriante\u201d gale\u00e3o que guarda em seu bojo, todas as cargas do mundo e todos os passageiros e mis\u00e9rias do latino-Am\u00e9rica tropical, onde a vida vale pouco mais que um sono de curumim e menos que o descuido de um timoneiro.<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; orphans: auto; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">A coisa come\u00e7ou com o ranger de t\u00e1buas e o acordar nas redes, rolando os paneiros de farinhas e o banque surdo das cargas se deslocando no por\u00e3o. A n\u00e3o ser nas travessias, os motores fogem das correntes, margeando as barrancas, os alados, aproveitando a luz da lua, com flashes espor\u00e1dicos do farol de proa, apenas para espantar os troncos e os maus esp\u00edritos enquanto todo mundo dorme, ressona no camarotes e nas redes, como se n\u00e3o estivessem navegando no majestoso Solim\u00f5es , cheio de abismos formid\u00e1veis e de peixes gigantes que seguem os barcos esperando a boa vontade do taifeiro que lhes atira os restos de um rancho de trezentas e tantas pessoas.<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; orphans: auto; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">O negrume da noite e os ventos meridionais encurralam o Marcia Maria no lago de Coari, que de pequeno n\u00e3o tem nada. A chuva chegou com a rapidez dos rel\u00e2mpagos e pode-se ouvir aqui e ali, um choro abafado de crian\u00e7a ou reza de m\u00e3es compadecidas porque o caboclo n\u00e3o chora e nem grita, mesmo diante da desgra\u00e7a. A proa atolava no meio das ondas e saia bebendo \u00e1gua, o por\u00e3o se inundu e o rebuli\u00e7o das cargas derrubou homens e cargas, mulheres e crian\u00e7as, e o sonho do curumim que tinha ido conhecer a cidade grande e da matrona peruana que deseja comprar \u201cuma bodega em Iquitos\u201d e mudar de vida. O Marcia Maria adernou perigosamente e os coletes salva vidas, uns poucos, foram distribu\u00eddos com algumas despedidas, algum choro e pouco desespero.<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; orphans: auto; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">O motor ainda resistiu algum tempo, bravamente se recusando a afundar rangendo briguento contra a f\u00faria do temporal, mas depois, sossegou num balan\u00e7o ultimo e tranquilo e so\u00e7obrou, ganhando o fundo do Coari, que guarda em suas entranhas os mais belos tambaquis, os sonhos dos caboclos amazonenses que espera, um dia que este nosso amazonas, n\u00e3o fa\u00e7a parte dos EUA.<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; orphans: auto; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">CONTINUA SEMANA QUE VEM &#8230;<\/span><\/p>\n<p class=\"ecxmsonormal\" style=\"line-height: 15.95pt; background: white; orphans: auto; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 16.2pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 11.5pt; font-family: 'Calibri','sans-serif'; color: #444444;\">Texto: Ivanir Aguiar \u00e9 jornalista e membro da Academia Vilhena de Letras<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo foi escrito atrav\u00e9s de um depoimento narrado por um trabalhador do cais que ganha \u00e1 vida carregando e descarregando navios em Manaus que, diariamente, sangram os rios Amazonas, Negros e Mamor\u00e9 transportando os ribeirinhos. 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